Amores e ônibus

Às nove horas da noite, Ágata Mourão ouvia o tilintar das grades da janela de seu quarto. Seu coração suspirava e batia num ritmo descompassado ao som das pedrinhas lançadas por Romualdo. Habitualmente, aguardava o terceiro ruído antes de abrir passagem ao homem de sua vida. Continuar lendo

Três e quarenta e cinco

O silêncio dividia seu reinado com o breu da cidade. As lâmpadas amarelas dos postes travavam uma guerra taciturna com a escuridão. As ruas adormeciam solitárias na ausência dos ratos e das baratas. No apartamento de M., nem mesmo a tímida luz da lua entrava, o prédio da frente metia-se no caminho. Na sala, com algum esforço, via-se livros e pratos espalhados pelo cômodo; todos vigiados pelo antigo relógio cuco de seu tio-avô.

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A viagem mais incrível de todas

Certa vez parti de BH com destino ao litoral do Espírito Santo. Viajava ao lado de um senhor cujo ronco era mais ruidoso que o motor do ônibus no qual estávamos. Os vórtices de sua respiração roubavam-me o sono e a paciência. Dormir seria impossível. Ler transformara-se numa luta entre eu e as páginas que esvoaçavam por conta dos furacões emanados de seu nariz. Tudo isso nos primeiros minutos do percurso. Bastou-lhe o tempo de reclinar o assento para desfalecer sobre ele. A mim, bastaram duas de suas fungadas bovinas para compreender a gravidade de minha situação. Continuar lendo

O médico do amor

Em sua crônica “Médico das Flores”, Vinícius (de íntimo que sou, trato-lhe somente pelo primeiro nome), questionado sobre sua profissão, imagina como seria belo ter em seu cartão de visitas: Vinícius de Moraes – Médico das Flores. Aqui, considero outra profissão, também da área médica, que venho a chamar de “médico do amor”. Continuar lendo