A incrível história do homem que nunca se sentiu triste

Antônio João da Silva conheceu a fama quando uma repórter, de passagem pelo povoado onde ele morava, presenciou o momento em que Antônio João dizia aos colegas de bar:

– Moço, não teve um dia sequer que eu me sentisse triste! – e ergueu o indicador para enfatizar a afirmação.

A repórter esperou os deboches cessarem e o abordou. Assegurou-lhe trabalhar em um grande jornal da capital e justificou a conversa: ficara muito interessada na frase que Antônio dissera. A moça pediu-lhe que a repetisse e ele atendeu-lhe de bom grado. Repetiu uma vez para que ela anotasse e outra para que gravasse. Sentaram-se junto ao balcão, onde iniciou-se uma série de perguntas. As mãos da repórter tremiam e a ansiedade enrolava-lhe a língua, de modo que precisava repetir a mesma pergunta duas vezes a fim de fazer-se compreendida.

Antônio João assistia àquilo sem se inquietar. Rolava um palito entre os dentes enquanto respondia tudo com notório pragmatismo. “Sim. Não. Não sei.” Quando muito, usava dez palavras para responder as perguntas mais profundas.

Angustiada, e temendo perder uma boa matéria, a repórter contatou o jornal. Exigiu alguns redatores, fotógrafos e profissionais da saúde mental. Dois dias depois, chegou ao povoado uma comitiva formada por cinco redatores, seis fotógrafos, oito câmeras, um psicólogo e uma psiquiatra. Desconfiados, os moradores observavam o rebuliço através das frestas das janelas.

Sem perder tempo, a comitiva dirigiu-se imediatamente à casa de Antônio João, que os recebeu com uma bacia de bolo e dois litros de café. Até tentaram recusar, mas Antônio foi logo dizendo:

– Ninguém sai daqui sem comer.

Os profissionais da capital tinham por objetivo a gravação de um documentário sobre Antônio João. Para isso, todo um aparato tecnológico foi montado em sua casa e por onde tinha o hábito de passar. Antônio João, mais uma vez, não se inquietou.
Após a bateria de entrevistas, o psicólogo e a psiquiatra conduziram seus exames. Antônio tossiu três vezes sob o estetoscópio; analisaram sua virilha, axilas, batimentos cardíacos. As únicas anomalias foram três furúnculos, um na nádega esquerda e dois na direita, que o acompanhavam desde os dez anos de idade.

Passadas duas semanas, veio o diagnóstico: o homem realmente não se sentia triste. A história espalhou-se mundo afora. Antônio João deu entrevistas a programas de TV, rádio e internet. Sua pessoa estourou na mídia internacional. Cientistas produziram, raspando-lhe os furúnculos, pílulas para afugentar a tristeza. Escritores escreveram livros revelando seu suposto segredo. E ainda, seu nome foi parar no livro dos recordes, como o homem que passou mais tempo sem se sentir triste: vinte e nove mil e duzentos dias.

A fama de Antônio João só terminou quando, numa entrevista, perguntaram-lhe:

– Então o senhor nunca se sentiu triste?

– Não. – respondeu ele.

– E feliz?

– Também não.

E ninguém jamais compreendeu sua resposta.

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