Quinze para as quatro

K. ziguezagueava pelas ruas mortas do centro da cidade. Nas madrugadas de inverno, até mesmo os ratos preferiam o aconchego de seus bueiros. Caía uma chuvinha fininha, perceptível somente através das cansadas luzes dos postes ou do espelho embaçado criado no asfalto. K. não se incomodava com os pequenos pingos, muito menos com o ar pós-apocalíptico da cidade deserta. Pelo contrário, propositalmente, escolhia as frias madrugadas das terças-feiras juninas para caminhar, certo de que não encontraria ninguém. Além do mais, esse ar fantasmagórico incutia-lhe a prazerosa sensação de ser o último habitante do planeta, uma espécie de lenda destinada a narrar os derradeiros momentos da humanidade.

Enquanto saltava sobre as poças d’água, K. tecia as razões do declínio da raça humana. “Uma epidemia de medo espalhou-se pelo mundo e matamos uns aos outros”, pensava ele. “Não, não, melhor… A crise da água culminou em uma terceira guerra mundial, da qual restaram as baratas, os ratos e eu.” corrigia-se. Entretinha-se também com as latas e garrafas largadas pelas calçadas. Andava a chutá-las, quando não as amaçava ou as quebrava.

Cansado, abrigou-se da chuva num ponto de ônibus. Dali, observou o relógio da igreja: quinze para as quatro. Acolhido pela solidão da cidade, K. meditava ao som, quase inaudível, dos pinguinhos sobre o acrílico do ponto de ônibus. Pousou os pensamentos sobre as razões que o conduziram até ali. Vagara pelo centro na esperança de esquecer as lembranças do pai que nunca conhecera. Caminhou sob as nuvens cinzentas de uma memória que sequer era sua; atormentado pela incapacidade de distinguir o passado que realmente vivera daquele ditado por outras pessoas. E dentro desse mar de incerteza, almejava cobrir uma ausência criando um mundo imaginário, cuja história seria livre para traçá-la do passado ao futuro…

Outras leituras

  1. Três e quarenta e cinco.
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