Comentários sobre “Como é dar aula no ensino superior e a corrupção na universidade”

Fiquei tão satisfeito com a repercussão do texto “Como é dar aula no ensino superior e a corrupção na universidade” que decidi escrever um post com comentários gerais a respeito dele. Peço desculpas àqueles que esperaram do texto uma argumentação profunda. Um dos compromissos que procuro manter é o de escrever textos curtos. Do contrário, ninguém lê.

Comentários recebidos

O texto abriu um debate muito rico, pelo menos para mim. Contamos com a participação de alunos, ex-alunos e professores. Foram mais de 120 comentários e boa parte deles sempre muito bem argumentados e com ideias muito interessantes. Me esforcei para responder a todos, mas não foi possível. Muitos deles exigiam uma reflexão profunda e enquanto respondia um, outros surgiam pelo caminho. Porém, acho que consegui responder à maioria.

O método de ensino e carga horária
  1. “Culpa do método de ensino”: O método de ensino e avaliação têm falhas? Sim, concordo. Mas então a solução é a trapaça? Colar? Pagar terceiros? Tenho certeza que muitos deputados e senadores têm uma boa justificativa para receberem dinheiro de propina. O método precisa ser revisto, mas o texto não tratava disso. Talvez um próximo post?
  2. “Carga horária longa”: Pois é. Isso faz sentido, mas ainda não justifica cola. E talvez deva ser revista. Ou não… É um discussão mais profunda.
  3. “Não sou obrigado a decorar fórmulas”: Ninguém é. Você também não é obrigado a fazer um curso superior, certo? Em minhas provas nunca houveram questões que apenas cobrassem fórmulas. Eu ensino a deduzi-las. Mas concordo que existem professores vidrados com isso. Mais uma vez, é preciso mesmo rever nossa maneira de avaliar os alunos.
outros
  1. “Curso superior não é para todo mundo”: Afirmação bastante delicada. Muitas vezes pensei assim e depois me arrependi com receio de ser elitista. Por outro lado, eu não seria capaz de ser um jogador de futebol, sempre fui um perna-de-pau, e ninguém diz que é elitismo pensar que nem todo mundo serve para ser jogador de futebol. O problema é que é fácil pensar de maneira excludente quando se faz parte dos favorecidos ou pré-destinados. Mas não podemos ignorar essa possibilidade. Certa vez, li um texto a respeito dos salários na Holanda. Lá uma empregada doméstica ganha 1/3 do salário do patrão. Lá há baixa variabilidade de salários. E qual a vantagem disso? Você pode levar a sua vida escolhendo a profissão que te agrada, não aquela que te dá mais dinheiro. Você pode, por exemplo, não fazer curso superior. Enquanto aqui no Brasil não temos essa chance. Mesmo com diploma a coisa fica complicada. Enfim… Preciso pensar melhor a respeito disso.
as pérolas dos odiadores
  1. “É muito fácil jogar a culpa nos alunos…”: É muito fácil não interpretar direito e assumir os fatos. No texto eu discuto o problema da postura corrupta dentro da universidade. Isso não implica, não quer dizer, não significa que eu considero esta como a razão de todos os males da universidade e do ensino. Apenas discuti a respeito de um problema. Do contrário, o post ficaria gigantesco.
  2. “Texto de PTista”: Não sou petista. E se fosse? Deixaria de ser verdade o que eu digo? Precisamos urgentemente deixar de ver PT em tudo. Pra evitar a ladainha, retirei os trechos que poderiam fomentá-la.
  3. “Puro desabafo de professor reclamão…”: zzzzzzz …. desculpe-me… dormi enquanto pensava numa resposta.
  4. “Aposta que sua aula é uma bosta”: zzzz… ooops, dormi novamente.
  5. “Você nunca vê professor do ITA reclamar dos alunos”: Oi? Eu não dou aula no ITA. Segundo, lá é um instituto militar, certo? Você é a favor de disciplina militar nas universidades? Enfim, não faz o menor sentido esse comentário. Coloquei aqui só por ser engraçado.

esclarecimentos gerais

  1. Não é por que o texto não aponta outros problemas que eu penso que eles não existam. Vejo muitas falhas no nosso método de ensino e avaliação. Só decidi falar de um deles, tudo bem?
  2. Não acho que a culpa é somente dos alunos. Ver item 1.
  3. Não discuti uma solução para preservar o tamanho do texto. Além disso, apontar os problemas é o primeiro passo para solucioná-los, certo? Logo, a falta de uma “solução” não invalida as afirmações feitas.

Estatísticas

Números! O alcance do texto foi assombroso! Mais de 55.000 visualizações em apenas três dias! E enquanto escrevo, as visualizações continuam crescendo. Isso me mostrou que é possível espalhar uma ideia pela internet e que podemos criar um espaço rico em discussões e ideias!

o futuro

A minha intenção com o blog sempre foi a de proporcionar conteúdo de qualidade (pelo menos gramaticalmente). Gostaria muito que ele se propagasse pela internet e os textos aqui presentes recebessem alguma atenção por parte das pessoas. Sou muito aberto ao debate e o sucesso do último post mostrou-me que é possível realizar discussões inteligentes numa internet inundada de comentários racistas e homofóbicos.

Convido aqueles que comungam da vontade de ver na internet mais conteúdos sérios a curtirem a página no Facebook: Amontoado de Ideias e a divulgarem o blog. Aqueles que têm sugestões para posts futuros podem me procurar no Facebook também. E se você deseja escrever o seu texto, me procure também! Será um prazer!

Fui convidado pelo professor Joaci Pereira Furtado da UFF a participar de debates que já acontecem por lá. Estou ansioso para começar!

Para os próximos posts, pretendo escrever sobre o método de ensino. Quem tiver ideias pode compartilhar!

Abraços e muito obrigado,

Rodrigo

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22 comentários sobre “Comentários sobre “Como é dar aula no ensino superior e a corrupção na universidade”

  1. camiladp disse:

    Excelente reflexão, do texto e dos comentários. Há muito tempo não lia algo inteligente nessa Internet, especialmente divulgada em rede social!
    Gostaria só de fazer um adendo ao tópico sobre o ensino superior não ser para qualquer um. Por muito tempo pensei que fosse para todo mundo sim, hoje penso que não. E Não significa ser elitista, já que tenho alunos cuja família tem muitas posses, e são bem limitados. Outros que vieram de ensino público, tem dificuldades financeiras sendo mantidos por Fies e Prouni, e mesmo com limitações, não intelectuais, mas oriundas de um sistema educacional extremamente deficiente, correm atrás do conhecimento e vencem muitas barreiras.
    Acho que esse é o único ponto que não concordo, de todo o texto bem escrito. Aliás, foi estimulante essa leitura, sinto que não estou só! Kkkkk

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    • camiladp disse:

      Ah! Ainda gostaria de acrescentar (desabafar seria mais correto) algo no tópico “cola”. Hoje há uma inversão de valores TÃO grande, que o professor que pega aluno colando, e o pune por isso, é o culpado da história, sendo ameaçado Até pelos pais do indivíduo corrupto.

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  2. JORGE, O DA VIRIATO disse:

    O único reparo a fazer é de não ter colocado o texto como originalmente concebido. Editá-lo para agradar ou não pensarem que segue tal ou qual tendência política é, no mínimo, inaceitável.
    Se o colega professor tem reparos a fazer neste setor da educação, faça-o, não tema e danem-se os descontentes.

    Uma outra coisinha: Rodrigo de quê? não tem sobrenome?

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  3. Morgana Piazenski (@morganapzk) disse:

    Nossa! TU É O CARA!
    Li o texto completo e vim “correndo” para ver essa postagens dos comentários. Estou me formando agora, e posso dizer que NUNCA fui hipócrita. Nunca pedi para colocarem meu nome na chamada ou algo parecido com corrupção. Deste modo, pela minha trajetória acadêmica, posso dizer que a faculdade não é para todos, como muito bem tu colocastes.
    Concordo com tudo o que tu diz. Adorei a reflexão sobre os comentários feitos pelos outros e o teu ponto de vista.
    MAAAAAAS, o tópico das pérolas ganhou! HAHAHAHA Não sabia se eu ria ou chorava com tais pensamentos de outros. Preferi rir.. porque chorar não iria adiantar nada. hahaha
    Abração, professor.

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  4. Jorge Melegati disse:

    Olá, Prof. Rodrigo,

    Achei bem interessante e gostei bastante dos seus textos. Apesar de discordar em um ponto ou outro mas estou escrevendo aqui para esclarecer um outro detalhe. Sou engenheiro formado pelo ITA. E, apesar de estar abaixo do Ministério da Defesa e do Comando da Aeronáutica, a escola é civil, a maioria dos seus professores é civil. A maioria dos alunos, como eu, entra no vestibular optando por ser civil e, depois de algumas instruções no 1o ano (foi o único período em que usei farda e somente às segundas-feiras), tem uma vida similiar a qualquer aluno de outra faculdade (com um pouco mais de pressão por causa das exigências de notas, frequência, etc). A propósito da frequência, lá a maioria dos professores faz chamada como na escola.
    Mas o ponto que queria falar é que lá realmente não há cola pois lá é pregado entre os alunos a Disciplina Consciente (DC, mais aqui:http://www.aeitaonline.com.br/wiki/index.php?title=DC). É uma espécie de código de ética entre os alunos inspirando em instituições americanas que instiga a pessoa a fazer o correto e, cujo resultado prático mais claro, é a ausência de colas. Tanto que é muito raro um professor ficar na sala durante uma prova e, em alguns casos, as provas são levadas para serem feitas em casa (!) mesmo que sejam sem consulta. E isso é levado bem a sério: casos de cola são tratados com desligamento do curso (sendo que os próprios alunos, sendo consultados, sugerem isso). Acredito que isso deveria ser um modelo para as outras universidades (e não só nas universidades mas para tudo e todos) e teríamos uma sociedade muito melhor.

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  5. Roseli disse:

    A universidade publica tem que democratizar o ensino no processo seletivo da fflch usp ingles so passa quem tem influencia e favoritismo dentro da usp , incrivel a corrupcao ate mesmo dentro das universidades publicas que seria um direito dos alunos oriundo das escolas publicas.

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  6. Bruno Estevam Amantéa disse:

    Professor eu posso fazer uma pergunta e gostaria que não ficasse ofendido por favor. O senhor nunca colou nem 1 coisinha na faculdade? Nunca copiou uma frase de ultima hora ou precisou daquela ajudinha por preguiça? Nunca usou uma frase de um amigo como resposta ou nunca buscou provas dos anos anteriores para decorar para a prova? Se todas as respostas forem não eu me calo e aceito todas as suas posições.

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    • R.R. disse:

      Bruno, eu não só nunca colei na faculdade, como nunca colei em toda a minha vida escolar. Sempre achei errado, mas sempre fui honesto comigo mesmo. Quando não era capaz de resolver uma questão, eu nunca achei que copiar seria a saída. Meu caráter é reto o suficiente pra encarar as minhas dificuldades de frente e até aceitá-las. Se eu não dei conta, então preciso me esforçar mais. Não justifica querer o resultado a qualquer custo. Entende?

      E não se preocupe, não fiquei ofendido.

      Grande abraço.

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  7. Luís disse:

    Prova como avaliação é inútil: quem já sabe não aprende nada novo, quem não sabe não aprende nada.

    Um professor que dá ênfase exagerada na avaliação, principalmente em provas é parte do problema sim. Aliás, é uma das causas.

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  8. Marco disse:

    Parabéns pelo texto original e pelo complemento. Cara, você tem muita paciência! Também sofro com haters e cheerleaders (#quemnunca), então adotei a política de bloquear e ignorar. Respondo apenas quem sabe se expressar e argumentar com lógica e civilidade, seja fazendo elogio, crítica ou sugestão. Expor a cara a tapa na internet não é mole, não… Se quiser, dê uma passada no meu blog: https://marcoarmello.wordpress.com. Verá que também trato desses temas.

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  9. Ana Julia disse:

    Gostei do texto e desses comentários posteriores. Sinto muita dificuldade na conversar sobre os problemas na educação superior entre alunos e professores, sempre um jogando a culpa no outro e é bom ver esse assunto sendo discutido. Recomendo a leitura desse texto que fala sobre o lado da metodologia de ensino e que reflete exatamente como me sinto no meu último ano de graduação, desmotivada, frustrada e com a certeza de que ela não chegou nem perto de me preparar para o mercado de trabalho. https://medium.com/@adautobraz/a-universidade-matou-sua-motiva%C3%A7%C3%A3o-5bc46f4f3d8e#.ctv5v6r4k

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  10. Denilson disse:

    Caro Rodrigo,
    inicialmente, gostaria de parabenizar pela iniciativa. Este debate é muito necessário.
    Lecionei por 12 anos até que desisti (talvez, temporariamente). Em parte por muito do que descreveu. Se está assim na UFMG, onde estudei, imagine nas particulares onde alguns alunos julgam estar comprando diplomas (e algumas instituições acreditam estar vendendo diplomas). Mas, se compreendi adequadamente sua reflexão, muito se perdeu do interesse no saber, no conhecimento e algo precisa ser feito.
    Como muitos já mencionaram, não dá para colocar toda a carga nas costas do aluno. Há vários outros motivos para a atual condição do ensino e vejo o professor como um elemento central.
    Quantos estão dispostos a mudar a situação? Muito do que convivi foi de professores que estão mais preocupados em publicações (que ninguém lê), seminários, encontros e eventos (que são verdadeiras ações entre amigos), titulação (que ninguém lê e cujas bancas também são ações entre amigos), aulas prontas dos sites das editoras (que querem vender seus livros), provas de múltipla escolha, decoreba etc. Quantos professores estão estimulando a análise, a crítica e o pensamento? Infelizmente, raros.
    Deixo a sugestão para escrever também dos outros atores na corrupção na universidade.
    Parabéns!!

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