Amores e ônibus

Às nove horas da noite, Ágata Mourão ouvia o tilintar das grades da janela de seu quarto. Seu coração suspirava e batia num ritmo descompassado ao som das pedrinhas lançadas por Romualdo. Habitualmente, aguardava o terceiro ruído antes de abrir passagem ao homem de sua vida.

Romualdo entrava meio desajeitado. Mesmo depois de tantas idas e vindas, entrando e saindo às escondidas, não demonstrava talento nem jeito para invasões furtivas. Era bruto, alto, largo e dos gestos grosseiros. Falava sempre alto e tinha o hábito de dar provas dos seus modos estabanados. De forma que suas visitas à namorada inciavam-se tradicionalmente com ele rolando pelo chão após despencar da janela. Na entrada caía pra dentro, na saída caía pra fora. Era a sua sina.

Ágata Mourão ria das maneiras do bem-amado e em seguida ajudava-o a levantar-se. Apesar de nunca saírem do quarto, ela o recebia sempre bem arrumada. Usava seus melhores saltos, o melhor perfume e dedicava horas à tarefa de enfeitar-se e pentear-se.

Quando a situação se ajeitava e Romualdo finalmente recompunha-se, uma brisa tímida entrava no quarto e as cortinas os tocavam docemente, enquanto olhavam-se nos olhos. Então, depois das primeiras carícias, entregavam-se, cegos e perdidos, a um amor bruto e apaixonado.

Foi assim durante alguns anos. À noite amavam-se na surdina, protegidos pelo breu e vigiados apenas pelas luzes dos postes e da lua, enquanto sob a luz do dia mal se olhavam. Até que Ágata Mourão, transexual decidida, fez pacto com Deus e o diabo, afogou Santo Antônio e preparou suas melhores receitas aos orixás. E numa atitude desesperada, cansada de sufocar o próprio coração sempre que cruzava com Romualdo pelas esquinas do bairro, prometeu doar todos os seus bens a um orfanato se o pedido de fazê-lo seu marido fosse atendido.

Não se sabe qual entidade religiosa atendeu o desejo de Ágata Mourão, nem mesmo se o feito viera do céu ou do inferno. É fato apenas que um dia, Romualdo apareceu em sua casa, cheio das juras de amor e prometendo-lhe o casório. Ela desmaiou tamanha incredulidade. Romualdo era cabra macho – abria côco no dente e barbeava-se no facão. Convencê-lo a assumi-la mostrava-se uma tarefa das mais impossíveis.

Na semana seguinte, Ágata Mourão dedicou-se a cumprir a promessa para evitar castigos e agouros. Andou pelos cartórios, bancos e seções governamentais. Agilizou todos os trâmites legais tão rapidamente que já na sexta-feira não tinha mais casa. E nem marido. Uma amiga apressou-se em avisá-la que Romualdo fora visto lá na curva do rio carregando os pertences no lombo. Ágata chorou de decepção por três dias inteiros…

Hoje, ela vaga de ônibus em ônibus a buscar o semblante de Romualdo entre os passageiros e pedindo-lhes dinheiro na esperança de reaver o que a paixão e o preconceito lhe roubaram.


Origem do conto

Se um conto é baseado num fato real ou não, pouco importa. Porém, este em particular tem alguma chance de estar próximo de uma história real. Indo para a casa dos meus pais, uma travesti entrou no ônibus pedindo dinheiro. Ao contrário daqueles argumentos “eu podia estar matando, podia estar roubando” ou “tenho nove filhos pra criar”, ela contou, em poucas palavras, a história de sua vida. Dizia ter doado todos os seus bens para pagar a promessa de conseguir um marido e que agora precisava reavê-los, pois não tinha mais onde morar. Ela não contou a razão de buscar novamente seu patrimônio e nem se preocupou em convencer os passageiros. Contou a história, aguardou o dinheiro do outro lado da roleta e desceu no ponto seguinte…

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