Três e quarenta e cinco

O silêncio dividia seu reinado com o breu da cidade. As lâmpadas amarelas dos postes travavam uma guerra taciturna com a escuridão. As ruas adormeciam solitárias na ausência dos ratos e das baratas. No apartamento de M., nem mesmo a tímida luz da lua entrava, o prédio da frente metia-se no caminho. Na sala, com algum esforço, via-se livros e pratos espalhados pelo cômodo; todos vigiados pelo antigo relógio cuco de seu tio-avô.

M. mexia-se na cama. Não sabia ao certo se estava acordada ou se dormia. Observava, com a cabeça espremida entre os travesseiros de sapinhos, a greta deixada pela porta entreaberta. Aguardava os monstros de sua infância ou assassinos dos noticiários. Há algumas noites, recebia-os em seu quarto. Naquela, em particular, vieram todos juntos. Os palhaços macabros dos antigos filmes de terror vieram acompanhados de seu primeiro urso de pelúcia. Os primeiros ressurgiam com frequência nas velhas ameaças dos adultos. Já o último, fora enterrado no jardim pela própria mãe – um grupo de vizinhos propagou o boato que o inocente ursinho viera possuído pelo demônio e a senhora M. tratou de livrar-se do brinquedo. Além dos palhaços e do ursinho, também vieram todos os outros monstros dos anos em que desobedecer os pais significava ser devorado vivo ou raptado por seres que habitavam seu armário. Também não faltaram, os estupradores e assassinos dos jornais precedidos pelo ladrão que levara-lhe violentamente o celular. Estavam todos lá. Abriram educadamente a porta do quarto e caminharam lentamente ao encontro de M.; seguravam suas facas ensanguentadas e seus sorrisos nefastos. M. quis gritar, pedir ajuda, porém seus gritos não emitiam som algum; seus músculos não a obedeciam, tornando-a incapaz de correr ou lutar. Atrás do lúgubre grupo, seus falecidos pais assistiam a tudo. M. gritava-lhes pedidos mudos de socorro. Em vão.

Seus algozes preparavam-se para esfaqueá-la. Podia sentir as gotas de sangue que deslizavam das facas quando finalmente sua boca cuspiu um grito:

– Caralho!

M. olhou para si e para o quarto escuro. Tateou o próprio peito, nenhum ferimento. Sentada sobre a cama, sentiu as costas molhadas, enquanto da ponta dos cabelos escorria um suor gelado. A menina saltou da cama e correu para sala. Acendia todas as luzes pelo caminho. Da faixada do prédio, entre os muitos quadradinhos pretos formados pelas janelas, um deles fez-se iluminado. M. corria pelos cômodos a acender as lâmpadas, abajus e o que mais pudesse ligar. As luzes revelavam um apartamento esquecido. A sala, além dos livros velhos, estava inundada de roupas sujas e restos de comida. O espelho do banheiro refletia apenas a fuligem vinda da rua. Na banheira, mais livros. O quarto abrigava uma cama coberta por um lençol marcado de suor. Uma velha escrivaninha suportava outros objetos ainda mais antigos. Embaixo da cama, garrafas de vinho e latas de cerveja. Tudo coberto pela poeira preta que só as metrópoles conhecem a receita.

M. abriu a janela que dava para a avenida principal da cidade. Faltava-lhe o ar e tinha dificuldade para buscá-lo; sua respiração empregava um ritmo descompassado e incapaz de encher-lhe os pulmões; sentia uma dormência nos lábios e os braços formigavam. “Vou morrer”, pensou ela.

M. abandonou a janela e circulou pela sala na esperança de acalmar-se. Tropeçava na própria bagunça. Então jogou-se ao chão, abraçou um exemplar de Dom Casmurro datado de 1910. Tentou folheá-lo, mas o tremor das mãos a impedia. Esforçou-se mais uma vez e parou uma página, lá para o fim do livro. Pôs-se a ler seu último parágrafo:

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a entornei, mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou atemperatura, porque o café estava frio… Mas não sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doidamente a cabeça do menino.

— Papai! papai! exclamava Ezequiel.

— Não, não, eu não sou teu pai!

A pequena leitura ajudou-lhe a recuperar o ritmo da respiração. As mãos firmaram-se envolta do livro e o formigamento havia partido sem se deixar notar. M. respirou fundo uma ou duas vezes a fim de reafirmar o controle dos pulmões; largou o antigo livro e levantou-se, dirigindo-se novamente à janela; encarou o relógio cuco de seu tio-avô e lembrou-se que, apesar do tic-tac, há anos não dizia as horas. Provavelmente, até o cuco não residia mais ali.

Da janela, M. avistou o relógio da igreja. Os ponteiros marcavam quase quatro horas da manhã. Ou quase três. M. nunca aprendeu a olhar as horas em relógios de ponteiros, a menos que marcassem horas inteiras. A jovem observava o silêncio da cidade e sua solidão. A imagem tranquilizava-a. Gostava de sentir-se como a única habitante da Terra. Enquanto olhava os postes, notou, através de suas luzes amarelas, a presença de uma chuvinha bem fininha. E sob os pingos quase imperceptíveis, viu um homem sentar-se no banco do ponto de ônibus. M. tentou adivinhar os pensamentos do sujeito e fazia-se perguntas a seu respeito. “Será que tem família? Ou será que é sozinho?” Fantasiou para o desconhecido uma vida feliz. Deu-lhe uma boa esposa e filhos estudiosos. Imaginou-o a chegar em casa pela manhã, depois do trabalho como segurança de boate. Os filhos o agarrariam pelas pernas, enquanto a mulher o beijava. Concebeu, inclusive, seus netos e pintou-o como um daqueles vovôs legais. Depois de traçar todo seu destino, M. pensou em voz alta:

– É meu amigo, somos os únicos habitantes desta terra. Você, sua família imaginária, eu e meus monstros…

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