A viagem mais incrível de todas

Certa vez parti de BH com destino ao litoral do Espírito Santo. Viajava ao lado de um senhor cujo ronco era mais ruidoso que o motor do ônibus no qual estávamos. Os vórtices de sua respiração roubavam-me o sono e a paciência. Dormir seria impossível. Ler transformara-se numa luta entre eu e as páginas que esvoaçavam por conta dos furacões emanados de seu nariz. Tudo isso nos primeiros minutos do percurso. Bastou-lhe o tempo de reclinar o assento para desfalecer sobre ele. A mim, bastaram duas de suas fungadas bovinas para compreender a gravidade de minha situação.

Além de todos esses inconvenientes, havia o problema físico. O homem tinha as dimensões de um boi. Suas mãos eram do tamanho da minha cabeça e o tronco, duas vezes o banco. O resultado foi eu, magricelo, prensado junto à janela e me cagando de medo de ser ejetado para fora do veículo.

De tanto desespero, confundi a primeira parada com o destino final. Quando o ônibus atracou, desci correndo e dei de cara com uma placa de João Monlevade. Foi a mesma sensação de sonhar ser rico e acordar pobre. Não dá lá muita vontade de continuar vivendo.

Na segunda parada, procurei não criar expectativas. Só desceria se chamado pelo motorista. Mesmo assim, uma pontinha do meu ser imaginou ele dizendo: “Ei, menino, já chegamos”. Não aconteceu. Fora nesse momento que descobri o nome do bicho: Dionísio. Outras pessoas gritavam-no, “Dionísio! Dionísio!”. E nada do sujeito acordar. Pediram-me que o cutucasse. Dei-lhe uns tapinhas de leve e nada. “Será que morreu?”, pensei. Resolvi me aproveitar da situação e vingar meu desconforto. Com o pretexto de despertá-lo, dei-lhe um cutucão, um beliscão e dois socos no baço. O único efeito fora em mim, alívio. Um terceiro homem surgiu detrás do banco, bateu com uma lata na cabeça de Dionísio. Só assim pro cabra acordar. E nem despertou no susto depois de uma latada nas ideias. Abriu os braços de preguiça e bocejou tranquilo.

– Já chegô? – perguntou, ele.

– Falta muito, sô! Agora toma aqui dez conto e compre lá umas cervejas – ordenou, o terceiro homem.

Ele aparou a imensa mão para receber o dinheiro. Tinha os dedos calejados e cada um da espessura do meu antebraço (sim, sou homem dos braços frágeis, mas um dedo pra um braço?).

Dionísio regressou tomando uma lata de Brahma, consternando o dono dos dez reais.

– Ô Dionísio! Cadê minha cerveja?

– O dinheiro não deu pra comprar duas… – respondeu dando um gole na lata.

Um quarto homem invadiu a discussão.

– Mentira! A Itaipava tava quatro reais!

– Mas eu não tomo Itapaiva. Tomo só Brahma. E a Brahma tava seis. – disse, ele, voltando a me esmagar no vidro.

Durante a viagem, o terceiro homem saiu novamente detrás do banco. Descrevia o lugar onde ficariam e alertou Dionísio quanto à presença de mosquitos e pernilongos. Lembrou-o da necessidade de repelentes e perguntou:

– Você lembra que te avisei dos mosquito? Cê trouxe repelente?

Trusse sim – respondeu, Dionísio.

– E cadê?

Ele levantou-se, fuçou a mala e sacou de lá um Baygon, desses inseticidas com desenhos dos insetos mortos na embalagem e um raio caindo sobre eles.

– Tá aqui.

Espirrou na própria cara e morreu. A lata tinha 150ml grátis.

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