Conto desbotado

A água fervia na panela, enquanto o marido punha a mesa para o café da manhã. A esposa saía do quarto tateando as paredes, mal abria os olhos tanta vontade tinha de estar acordada.

– Venha! O café já está quase pronto. – alertou, o homem.

Ela fez que ouviu e dirigiu-se à cadeira num esforço preguiçoso para alcançá-la sem tropeçar pelo caminho. Quando estava a chegar, o marido conduziu seus passos finais, ajeitando-lhe gentilmente a cadeira para que se sentasse.

– Preciso de um café… – resmungou, a mulher.

Não fossem os vinte anos casados, a fala da esposa seria incompreensível. Mas tanto tempo juntos os tornaram bastante hábeis em compreender e captar os sinais do companheiro. Bastavam-lhe um olhar atravessado, um franzir de testa ou mesmo um curto silêncio para decifrarem um ao outro.

Meticulosamente, o marido punha a mesa como um artista põe as cores sobre a tela. A disposição de cada louça e talher se justificava pela ciência das tradições. Ele poderia explicar a presença de cada item e dar três explicações distintas das vantagens de se pôr a mesa daquela maneira e não de outra milimetricamente diferente.

Antes que a água escapasse da panela, o homem apagou o fogo e finalmente serviu o café à esposa; derramou a bebida numa singela xícara de metal – cuja cor não se podia mais dizer qual era – e a colocou com carinho ao alcance dos olhos da mulher. Fazia tudo com a mesma precisão e o mesmo zelo de anos atrás. Nunca fora capaz de desfazer-se do hábito de pôr a mesa e servir a esposa. Contudo, aquele dia, ou talvez há alguns anos, encarava o ato como um costume e não um prazer. Descascava as frutas, adoçava o café, cortava os pães, não mais pelo desejo urgente de satisfazer a esposa, mas simplesmente porque era isso que fazia todas as manhãs durante vinte anos. Poucas foram as vezes que questionara sua vontade de estar ali. Como um cão de rua correndo atrás dos carros, pôs a mesa durante anos sem saber exatamente a razão do religioso hábito. E agora, tanto tempo após o dia de seu casamento, assustou-se diante da incapacidade de justificá-lo. “Alguma coisa se perdeu pelo caminho…”, pensava.

Segurando a xicarazinha de metal com as duas mãos, a mulher via-se refletida no negro da bebida. Há anos apoiava os cotovelos sobre a mesa, enquanto bebia o café preparado pelo marido. Nunca gostou de acordar àquela hora, porém gostava menos ainda de deixá-lo esperando em seu ritual de pôr a mesa. Olhou-se mais uma vez no reflexo do café e odiou estar acordada, odiou o marido saber com exatidão a doçura de seu café, odiou a dedicação e empenho com que ele fazia, todas as manhãs, a mesma mesa – com as mesmas frutas, os mesmos pratos – e, sobretudo, odiou ser servida sempre naquela xícara de metal velha cuja cor desaparecera em algum lugar do tempo.

As dúvidas acompanharam outras manhãs e deram lugar a certezas. A mulher decidiu passar uns dias na casa da mãe e homem ficou em casa a ser consolado pelos amigos. Ele ainda colocava a mesa como se a esposa estivesse ali. E ela ainda despertava mais cedo buscando sua xícara de metal e seu café matinal. Sofriam a se procurar nos rostos dos outros, nos pequenos detalhes do dia, nas xícaras de metal, no arredar das cadeiras, em suas imagens na superfície do café. Amavam-se, quanto a isso jamais tiveram dúvidas, no entanto, não estavam felizes juntos havia algum tempo.

Angustiado com  a distância, o homem decide procurar a mulher. Tem na cabeça uma ideia na qual pensa pelo caminho. Ao chegar na residência da sogra vai logo dizendo:

– Precisamos fazer alguma coisa por este casamento… Antes que você me interrompa, preciso te contar uma ideia que tive.

– E qual seria?

– Poderíamos ir a um bordel… – soltou, o homem, encarando os próprios pés.

– Bordel?? – ela se assustou.

– Sim… Um “putêro”!

– Depois de velho resolver ficar safado, homem?!

– Não é isso… As pessoas fazem dessas coisas para salvarem seus casamentos…

Por fim, a mulher acabou cedendo e o casal foi a um bordel nas proximidades da rodoviária da cidade. A entrada sequer parecia uma entrada. Não convidava ninguém a atravessá-la, muito menos protegida por seu segurança, sério feito galo de briga. Apenas um pequeno letreiro, cuja luz provavelmente partira havia anos, indicava que ali de fato existia, ou insistia em existir, um bordel. De mãos dadas, homem e mulher atravessaram a antipática porta e adentraram o lugar. Notava-se de longe a falta de jeito e timidez com que caminhavam e exploravam as dependências do local.

Após a porta e um estreito corredor, encontrava-se uma sala com luzes roxas e vermelhas. Via-se ao fundo um bar decorado com garrafas vazias e homens empoleirados no balcão. Eram cortejados por garotas de presença tão vaga que mais pareciam estar em outro lugar. Juntas às paredes, pequenas cadeiras de madeira serviam a homens e mulheres que se enroscavam em carícias perdidas e imediatas. Elas ansiavam pelo dinheiro deles e eles, pelo corpo delas.

O casal passou desajeitado pela satisfação dos outros, dirigindo-se ao bar. Lá avistaram uma plaquinha a descrever os serviços e seus respectivos preços:

“Quarto simples (um homem e uma mulher) – R$ 30,00

Quarto lucho (um homem e uma mulher)   – R$ 50,00

Quarto simples (casau mais otra mulher) – R$ 60,00

Quarto lucho (casau mais otra mulher)   – R$ 120,00″

O casal leu atentamente as informações.

– Luxo não é com xis? – perguntou, a mulher, bem baixinho.

– É sim… E casal com L…

Buscaram os preços para casais.

– Vamos de luxo? – perguntou, ela.

– Mas é o dobro do preço…

Optaram, então, pelo quarto simples. Pediram um desconto, afinal não desejavam o serviço de outra mulher. “Quarto vinte e três”, disse o mesmo homem que atendia o bar, entregando-lhes as chaves e indicando o caminho. Atravessaram outro corredor com portas por todos os lados. Saindo de cada uma delas, ouvia-se gemidos, sussurros e até declarações de amor. Quando finalmente chegaram ao quarto vinte e três, assustaram-se com a cena. As paredes choravam as lascas e os mofos, abrigando três colchões velhos e marcados de tantas histórias que se passaram sobre eles. Dois deles acomodavam quatro mulheres que se perdiam e se encontravam entre línguas e dedos.

Antes que o casal ensaiasse meia volta, surgiu atrás dele o homem do bar a empurrá-los quarto adentro. “É esse mesmo! É esse mesmo!”, insistia, o sujeito. Em seguida se viram nus sobre o colchão marrom de suor, rodeados pelas mulheres a se amarem. Ele olhou nos olhos da mulher e depois encarou seu corpo iluminado pela abatida luz roxa. Já não tinha os mesmos encantos, seus seios eram tristes e suas pernas cansadas. Ela retribuiu o olhar. Não se encantava com o sorriso do marido e se incomodava com a ausência de cabelos. Parecia-lhe um homem desbotado, um homem cinza. Olhavam-se e acariciavam-se ao mesmo tempo que nos outros colchões as mulheres de outrora se transformavam em homens cada vez mais imersos num sexo louco e violento.

Ele tentou penetrar a esposa numa tentativa tímida e sem querer. Só então, perceberam que os anos levaram consigo não somente os cabelos, a firmeza dos seios, a delicadeza da pele, mas também a admiração mútua, os carinhos e o sexo.

Os gemidos dos homens deram lugar ao silêncio e a mulher pôde recostar sua cabeça no ombro do marido. Ele a ajeitou delicadamente e a envolveu com os braços. Permaneceram calados, resignados com o egoísmo do tempo. E ali, naquele quarto sem camas de um triste bordel da cidade, ele murmurou:

– Nós nos perdermos no caminho…


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