O Cinza

A cor branca é a mistura de todas as cores, enquanto o preto é ausência de cor. O cinza vaga entre um extremo e outro sem saber ao certo de onde vem e nem para onde vai. A ele, se associa comumente a tristeza, a depressão, a melancolia. O que está morto é cinza! Se os vínculos parassem por aí, decerto poderia-se dizer que o cinza pertence mais ao lado direito desse espectro branco-preto. Contudo, observando uma fotografia dependurada na parede do meu quarto, posso dizer que o cinza também tem vida.

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Trata-se de uma bela composição enquadrando uma marcante frase do Pablo Neruda:

Podrán cortar todas las flores, pero no detendrán la primavera

A frase por si só tem seu valor. Mas não seria tão enigmática se tivesse cores. Não teria a vida que tem se tivesse cores. O cinza ali é fundamental para conferir à imagem um aspecto passado, porém interminável.

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O cinza também impera nas grandes cidades, nos prédios e em seus moradores. Um edifício com seus sessenta e quatro apartamentos é o ápice da vida. Ali, vivem lado a lado, centenas de pessoas que, em geral, mal se conhecem. Cada uma delas enxerga a mesma cidade, a mesma rua, o mesmo prédio, o mesmo corredor de maneira diferente. Das janelas, umas fumam, outras ajeitam o cabelo, umas tomam ar, outras o perdem, e algumas até pulam. Na sacada de um prédio pode-se encontrar histórias que se cruzam sem se notarem. O idoso com câncer mora ao lado do jovem que acaba de receber uma incrível oferta de emprego. Enquanto,  aquele coloca suas coisas em dia e avalia sua própria existência, esse faz planos para o futuro “Quem sabe Cancún em abril?”. Tudo isso olhando a mesma avenida cinza em frente a outro prédio cinza.

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E é no verão que o cinza mostra a sua faceta mais gentil. São as nuvens mais cinzas quem nos salva daqueles dias quentes que nos roubam a vontade de viver. Esse cinza do céu faz uma trégua com o sol tirano, lava a alma e a cidade, trazendo de volta o desejo de continuar. Esses dias cinzas são um verdadeiro reset no verão, interrompendo o calor excessivo em troca de um friozinho afável…

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P.S.: Este texto foi parido enquanto o autor observava os tons de cinza da avenida se misturarem diante da janela de um ônibus.

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