Quatrocentas mil palavras

A língua portuguesa tem aproximadamente 400 mil palavras. Algumas estimativas apontam 600 mil. Isso sem contar as gírias e neologismos ainda não incorporados oficialmente. Mesmo assim, com quase, ou mais de, meio milhão de palavras nós ainda as escolhemos muito mal. Há malícia, inveja, raiva, rancor e maldade em nossas frases, enquanto faltam gentileza, sensibilidade, empatia e educação.

Os dias são inundados por tempestades de frases maldosas e ofensivas que jorram da boca das pessoas, impunemente. Fazemos afirmações caluniosas com pouca, ou nenhuma, informação. Sem nenhuma evidência ou por meio de uma lógica fantasiosa, ofendemos sem sequer termos certeza da veracidade das palavras que passamos adiante.

Nosso vizinho trocou o carro, nosso colega obteve boas notas, a moça bonita do outro setor foi promovida. E entre as 400 mil palavras da língua portuguesa, escolhemos sempre as mais invejosas e preconceituosas para construir nossos comentários. O vizinho é trambiqueiro, o colega trapaceiro e a bonitona prostituta. Não existe a opção pelo silêncio. Precisamos fornecer uma opinião sobre fatos ou pessoas e ela deve ser sempre a mais cruel possível.

Elogios já não andam livres, sendo sempre acompanhados por resalvas: “ele é boa pessoa, mas…”. Nossa comunicação é deficiente. Escolhemos palavras ambíguas e maliciosas para machucar o outro, muitas vezes gratuitamente ou por conta de algum desconforto que raramente sabemos explicar de onde veio. Nos escondemos atrás da ambiguidade para criticar, pois nos sobram palavras para enumerar defeitos, contudo nos faltam palavras para descrever qualidades e, principalmente, nos falta coragem para sermos francos. Chegamos ao ponto de criarmos novos insultos porque 400 mil palavras já não nos basta.

Enquanto isso nós nos afogamos, tristes e ressentidos, nessa enxurrada de crueldade e ofensas transvestidas de palavras mal escolhidas…

A fim de ilustrar a beleza de nossa língua e a fartura de belos vocábulos, termino esse post com as palavras do brasileiro que melhor soube escolhê-las.

Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude

Vinicius de Moraes

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