O médico do amor

Em sua crônica “Médico das Flores”, Vinícius (de íntimo que sou, trato-lhe somente pelo primeiro nome), questionado sobre sua profissão, imagina como seria belo ter em seu cartão de visitas: Vinícius de Moraes – Médico das Flores. Aqui, considero outra profissão, também da área médica, que venho a chamar de “médico do amor”.

Fico a imaginar quando fosse eu apresentado a outras pessoas e surgisse, em algum momento da conversa, aquela pergunta costumeira das gentes que estão se conhecendo: ”você faz o que da vida?” Eu diria com orgulho algo bem diferente de professor ou matemático.

– Eu? Sou médico.

E as pessoas ficariam impressionadas e logo perguntariam:

– E qual é a sua especialidade?

– Me especializei no amor – eu responderia de peito estufado e orgulhoso por ter escolhido, entre tantas especialidades médicas, aquela que cuida do coração das pessoas. E quando estivesse conhecendo os pais de minha namoradinha eu me introduziria assim:

– Prazer! Rodrigo. Médico do Amor. Graduado e pós-graduado na Escola da Vida.

Meu sogro decerto pensaria “tão novo e já é médico?” e apertaria a minha mão com a felicidade de ter um médico na família. Minha sogra se encantaria com o genro por ter uma profissão tão prestigiada e tão sensível.
A minha rotina de trabalho seria longa. Eu atenderia, em meu consultório na praça da Liberdade, gente de todos os cantos e todas as cidades. Com o estetoscópio no peito do paciente, o diagnóstico viria de pressa como deve de ser as coisas ligadas ao amor.

– Pois é, meu filho. Você sofre de amor – arremataria, eu, só de ouvir os batimentos do coração do indivíduo.

Eu saberia diagnosticar qualquer enfermidade relativa ao amor através dos palpites e ritmos descompassados dos corações de meus pacientes. Em alguns casos recomendaria outras especialidades quando os pacientes confundissem as doenças.

– Não, não, minha filha. O que você tem é paixão e paixão nada tem a ver com amor. Terei de encaminhá-la para esse meu amigo aqui que é especialista no assunto.

E em outros o meu conhecimento seria colocado em dúvida por aqueles pacientes maníacos por remédios.

– Infelizmente, senhorita, por mais avançada que esteja a medicina atualmente, não temos remédios para o mal do amor. Alguns laboratórios testaram, mas o efeito colateral foi dos pacientes nunca mais voltarem a amar. Você não vai querer isso, vai?

Eu não atenderia planos de saúde e nem particular. Antes, faria uma análise clínica para dizer se o problema é mesmo dos domínios do amor. Constatada a relação, eu iniciaria o tratamento que seria sempre à base de beijos e abraços.  “Um abraço a cada duas horas enquanto durarem os sintomas. E depois também…” e “Beijos sempre que pintar uma oportunidade.” seriam as minhas únicas recomendações como o mais famoso e respeitado Médico do Amor.

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2 comentários sobre “O médico do amor

    • R.R. disse:

      Minha cara, muito obrigado pela mensagem. Antes de te responder, gostaria de deixar claro que a Escola da Vida é a mais renomada escola de medicina do amor.

      O princípio básico da medicina do amor diz que carinho cura todo o mal. Mas é preciso ter cuidado com esse tratamento. Sempre é necessária a colaboração do paciente. Caso contrário essa abordagem é ineficaz.

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