Grupos e nossa identidade

Seres humanos precisam se particularizar. Se você está entre estrangeiros você faz questão de ser brasileiro, se está entre brasileiros de estados diferentes então você se sente bem por ser mineiro e por aí vai. Fazer parte de um grupo é ter uma identidade. Existe o grupo do metal, do axé, do funk, do sertanejo e blá blá blá. Mas não basta pertencer a um grupo, você deve desmerecer os outros e tudo que não é captado pela coleção de conceitos com os quais você se identificou é classificado como uma tremenda bosta ruim.

Mas também não basta pertencer a um grupo e desmerecer os outros. O seu grupo deve ser super específico.
Por exemplo, se em um grupo as pessoas se identificam pelo gosto musical e você é novo na área, então seus primeiros diálogos serão mais ou menos assim:

-Ei, vocês curtem um Rock’n’Roll?
-Bosta.
-Sertanejo?
-Bosta.
-Axé?
-Bosta.
-New metal?
-Bosta. Nós curtimos é new heavy hard dois pra baixo um pra frente soco forte metal melódico.

Nem arrisco perguntar a banda para não ter de ouvir nomes que não faço a menor ideia. Mas se mesmo assim os nomes aparecem, depois de uma busca na internet você acaba descobrindo que as bandas são de uma região pouco conhecida da Letônia e a única pergunta que vem a sua cabeça é: onde esses caras conseguem essas bandas?

Mas se o grupo se identifica por gosto literário aí as primeiras conversas são assim:

-Paulo Coelho?
-Bosta.
-Guimarães Rosa?
-Bosta.
-Chico Buarque?
-Nem como músico. Bosta também. Nós gostamos é de Briachslav Borya Vasilevich, um escritor do sul da Ucrânia na divisa com a Colômbia, o qual possui um estilo mais neo-pós-contemporâneo-moderno-médio-pré-histórico.

Essa necessidade é incrivelmente forte na adolescência, mas felizmente diminui quando se adquire um pouco de maturidade. Quando mais maduro o ser humano começa(ou não) a perceber que dá trabalho criticar as escolhas dos outros, cansa e que no fim das contas somos todos um só bando de coitados nos virando como podemos para sermos minimamente felizes.

P.S.:Quero deixar claro que não estou aqui pregando todo o relativismo. Há escolhas que as pessoas fazem que podem prejudicar outras e essas não só podem, mas devem ser criticadas. 
P.S.2: Existem também aquelas pessoas tipo eu assim que se orgulham de não pertencer a grupo algum, mas não são inteligentes o suficiente para perceberem que não fazer parte de nenhum grupo e criticar os outros grupos é exatamente a mesma coisa que foi citada acima. Resumindo, gente que não percebe que contra-cultura também é cultura.
P.S. 3: Existem estudos de sociólogos e matemáticos usando dados de redes sociais apontando para o que eles chamam de Lei da Homofilia (não confundir com homofobia) que é essa nossa tendência de nos relacionarmos com quem possui interesses parecidos com os nossos.
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