O universo se comunica comigo

Você está imerso naquele relacionamento perfeito, convicto de ter encontrado sua alma gêmea, esperando que tudo dure, pelo menos, uma eternidade, quando de repente é chamado para uma conversa e escuta:

Desculpe, não é você. Sou eu. Você é bom demais pra mim…

E assim acaba um sonho, com uma afirmação que possui algum sentido apenas gramaticalmente.
Ok.
Você chora, conta para os amigos e amigas, sua vida vira um cocô e aquela “coisa toda” que todo mundo já vivenciou.
Seus amigos te dão todo tipo de conselhos, inclusive os mais profundos, como

  1. Ele(a) não te merece!
  2. Você encontrará alguém melhor!

Depois disso, tudo parece ser sobre o amor (ou a falta dele). Fazer suas compras na C&A não é possível, pois tocaram a trilha sonora de seu antigo namoro. Você decide sair para um bar com música ao vivo e naquele dia o Sr. Voz e Violão está com o repertório recheado de músicas românticas.

É o fim! Impossível esquecer essa situação se o universo sempre faz questão de relembrar tudo! Justamente quando você está mais sensível o mundo decide ser mais romântico.

Quase sem forças, o jeito é procurar aquele(a) amigo(a) mais maduro(a), na esperança de que ele(a) te apresente uma saída do buraco que você anda se enfiando.
A conversa é boa. Ele(a) consegue te animar com palavras sábias e conselhos profundos e, de quebra, termina a “terapia amiga” com a frase que você precisava ouvir:

Isso pode ser o começo de novas experiências. Tudo acontece por um motivo!

Super sensível, você acredita do fundo do seu coração que existe alguma profundidade nessa frase e vai para sua casa feliz à espera de novas experiências.
Dois dias se passam e sua rotina é a mesma. Nada de novo. O mundo continua fazendo questão de reviver seu relacionamento fracassado e seu cérebro começa a questionar a veracidade do conselho do seu(ua) amigo(a).
Até que… num dia normal você se senta ao lado de uma pessoa no ônibus e ela está lendo um livro cujo título é:

O Fim como um recomeço

Um sinal do universo! É a primeira coisa que vem à sua cabeça. O universo deixou de charme e, por linhas tortas, te passou uma mensagem! E que mensagem! YES!

Aquele título é o sinal do universo. É ele te dizendo que sua vida voltará ao normal. É ele confirmando que tudo acontece por um motivo e que o fim do seu namoro certamente será o começo de outra experiência muito melhor!
Certo? Não.

O que acabou de acontecer aqui tem um nome: Viés de confirmação.

Viés de confirmação é uma tendência que nós seres humanos temos de buscar ou interpretar informações de modo a confirmar nossas teorias e crenças.
Na nossa situação hipotética, a pessoa interpretou o título de um livro como uma confirmação do conselho de seu amigo. O viés de confirmação a conduziu a pensar seletivamente, colocando em evidência todos os fatos que, de alguma maneira, poderiam se encaixar na sua presente situação, na sua “crença” de que fins são apenas recomeços.

Provavelmente o Sr. Voz e Violão sempre tocou músicas românticas, a C&A já tocava a música trilha sonora do seu namoro antes mesmo dela ser trilha sonora do seu namoro. Porém, como tudo isso aconteceu em momentos que assuntos como fim de relacionamentos e amor, por exemplo, não se sobressaíam, você acabou por não associá-los à sua pessoa ou às suas experiências.

Possivelmente, o personagem aqui, já se sentou muitas vezes ao lado de pessoas que liam livros cujos títulos, ou subtítulos, continham as palavras fim e (re)começo, mas durante essas outras vezes não era necessário confirmar nenhuma teoria envolvendo fim de relacionamentos, ou alguma outra crença ou situação qualquer.
É esse viés de confirmação que leva pessoas a acreditarem em todo tipo de teoria, seja naquelas elaboradas por elas mesmas, ou em teorias mais gerais como na “Lei da atração.”

A coisa é simples, digamos que uma pessoa conjecturou “nenhum homem presta”, por exemplo. O viés de confirmação logo a conduz a procurar todos os casos que corroboram com sua afirmação e a ignorar os casos que a invalidam. Isto é, para validar a teoria “nenhum homem presta” esse viés sobressalta os casos em que os homens agiram como imbecis e ignora ou atribui peso menor aos casos em que os homens agiram corretamente. Isso leva a pessoa a acreditar que sua teoria é verdadeira pois é verificada em praticamente “todos” os casos! Entretanto, o que ela acabou de fazer foi verificar a sua teoria testando somente os casos que garantem sua afirmação, dando nenhuma ou pouca importância para aqueles que a invalidam. Existe um problema aí, pois nem mesmo 100 mil exemplos corroborando com a teoria asseguram sua validade, por outro lado, basta um único exemplo para invalidá-la. Ou seja, os casos que não vão de encontro a teoria são aqueles com mais peso.

É preciso ficar atento a esses nossos vícios, pois eles alteram nossa capacidade de julgar bem os fatos.
Termino aqui com uma charge do Dilbert que ilustra bem o que quero dizer

dilbert-confirmation-bias

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